Saiba a hora de parar de falar

Eu penso muito em como começar bem uma Apresentação.
Fico martelando na parte dos pontos de interesse, as perguntas que vou lançar às pessoas…
Anoto onde posso colocar um pouco de humor pra acordar o povo.

Mas hoje assisti uma palestra que me deu o que pensar.
O apresentador era realmente muito bom. Gostei de tudo o que ele dizia, e ele realmente conseguia manter o interesse dos ouvintes.
Mas chegou um determinado momento em que eu percebi que minha atenção já não era a mesma.

Que coisa, pensei.

Como é que a apresentação estava indo bem e de uma hora pra outro começou a se perder?
Como eu percebi isso, quais foram os sinais de que uma apresentação começa a patinar e o que fazer então?

Uma das coisas que percebi foi que o recado que ele precisava passar já havia sido esgotado na metade do tempo que ele tinha disponível.
Ele tinha uma hora para falar, mas praticamente havia passado a mensagem na meia hora inicial. Foi quando começou a ser um pouco repetitivo, e aí os ouvintes começaram a se dispersar um pouco.

Outro sinal foi o fato de ele começar a ver o relógio neste momento Me deu a impressão de que percebeu que tinha muito chão pela frente ainda - mas devia sustentar o assunto.

De qualquer modo, comecei a refletir o que poderia fazer neste caso.

O que fazer então?

Salve-me, blog OutroJeito!

Tem OutroJeito que resolva isso?


O primeiro conselho é:
Prepare o seu assunto em "atos": assim como no teatro ( e talvez você não saiba mas também no cinema), podemos dividir a apresentação em atos.

No caso de uma apresentação, sugiro criar dois ou três atos, a depender do assunto e do tempo disponível.
Cada ato deve ter a apresentação do seu sub-tema, com seu sub-conflito (a "pergunta" ou ponto motivador mencionado em artigo anterior) e sua resolução. Essa resolução idealmente deve se conectar ao próximo ato.

Com esses dois ou três atos, fica mais fácil de administrar o tempo e o desenvolvimento de uma apresentação.
Se o primeiro ato está despertando muita atenção - e é mais importante que o segundo - você pode decidir estendê-lo um pouco mais e resumir os próximos.
Se um dos atos teve pouca repercussão, você o encurta e passa para o próximo.
E se for uma apresentação que deverá ser reprisada, melhor ainda: você poderá consertar um ato específico.

O segundo conselho é:
Você não precisa explicar tudo para que as pessoas sintam-se satisfeitas com sua Apresentação

Quando você se prepara muito para uma Apresentação, o instinto lhe diz para passar adiante tudo o que coletou e preparou.
Você pode não estar certo.

Isso é até um pouco de contra-senso, não é?
Geralmente a preparação de uma apresentação leva cinco vezes mais do que o tempo que levaremos para falar - às vezes mais do que isso.
Ou seja, tudo o que lemos e preparamos para uma hora geralmente leva mais que cinco horas de preparo!
Nunca vai dar para falar tudo mesmo!

Cabe a você, então, ver o que cortar e o que preservar.
Neste ponto, o que mais vale é o foco que você vai escolher para sua Apresentação.
Veja como adequar o foco corretamente neste outro artigo que publiquei recentemente.

Por muito tempo, considerei que fazer uma boa Apresentação era sinônimo de Ensinar Tudo.
Enquanto não esgotasse o assunto não ficava satisfeito.

Hoje mudei bastante o enfoque.
Nas palestras, uso o mesmo tempo de preparo.
Mas sempre com um objetivo em mente: como fazer com que se interessem por isso?
Onde está o gancho que faz meu interesse acender, e como passar isso para eles, com o tempo limitado que tenho?

Hoje já não ensino mais. Prefiro inspirar.
Dá muito mais prazer, dá muito mais resultados.


O terceiro conselho é mais importante, mais delicado e doloroso:
Saiba quando parar.

Em alguns casos, quando a coisa vai bem, continuar pode não ser a melhor opção.
É difícil falar quando parar sem saber qual seu tema, mas uma dica valiosa pode ser: pare quanto estiver "em alta".
Artistas fazem isso, jogadores fazem isso. Se bem que nem todos seguem essa regra, infelizmente…

O que isso quer dizer para uma Apresentação?

Como falei, é complicado generalizar uma dica dessas. Saber quando parar é algo que você deve refletir.
Depende de bom senso individual. Nem eu tenho isso direito.
Mas é importante nos questionarmos e tentarmos ver isso sempre.

Jerry Seinfeld foi protagonista de um dos maiores sitcoms norte-americanos.
A série foi encerrada na "alta".
Seinfeld recusou uma proposta de 5 milhões de dólares POR EPISÓDIO da NBC ( leia na CNN).

”We’ve all seen a million athletes where you say, ‘I wish they didn’t do those last two years,’ ” said Mr. Seinfeld. ”For me, this is all about timing. My life is all about timing. As a comedian, my sense of timing is everything.’

Na sua genialidade, Seinfeld explicou o inexplicável de um modo simples, como ele sempre fazia.
Quando você percebeu o momento de parar?
Apenas senti, respondeu ele. É difícil explicar, mas eu senti. É como quando você vai a um restaurante, e a comida está muito boa, e você come muito bem. Mas tem um ponto em que você percebe que, com mais uma garfada, você pode estragar uma bela refeição. Não é uma questão de quantidade. Você apenas sabe. E você sabe, sente que deve parar naquele momento,

Enfim, fica aqui a dica do Seinfeld: você deve aprender a sentir o momento certo de encerrar sua apresentação.

Boa semana e sucesso!!!








6 Responses to “Saiba a hora de parar de falar”  

  1. 1 Rafael Mauricio Menshhein

    Bom dia.

    Outro excelente artigo, a cada dia consigo aprender mais com suas dicas preciosas e pontuais, parabéns novamente.
    É interessante saber que o desejo do homem em sempre querer mais pode estragar as coisas, especialmente uma apresentação, mas há momentos em que o tempo determinado é muito longo, isto ocorre porquê os organizadores têm em mente que a pessoa que é palestrante deve ensinar.
    As melhores palestras, na minha opinião, são aquelas que deixam uma semente, que agregam mais um espaço ao horizonte que temos e que demonstram sabedoria ao cativar a platéia.
    Da mesma maneira sempre há quem “ache” ser o dono do conhecimento, eu mesmo já percebi isso, pessoas que ficam mexendo no celular, lixando unhas, conversando, olhando para os lados, o que é interessante, pois tenho consciência de que ainda preciso aprender muito, mas em uma apresentação ou palestra o maior interessado é o público e este deveria ser o requisito para entrar, ouvir, questionar, ensinar e aprender.

    Obrigado novamente, tenha uma excelente semana, com muita alegria e conhecimento.

  2. 2 OutroJeito

    Caro Rafael,

    Você ressaltou bem:
    o mais importante é plantar a semente.

    abraços e ótima semana!

    Milton

  3. 3 OutroJeito

    Vários internautas leram o artigo e deram a opinião neste link:
    http://www.via6.com/topico.php?cid=7519&tid=68150&id_link_rec6=31916
    Confira!!

  4. 4 Maria Carvalho

    Milton,

    Você foi “no ponto certo” mais uma vez.
    Tenho buscado na platéia os sintomas que me façam parar de falar. Não é muito fácil. Muitas vezes descubro que a interpretação dos sinais foi errada. Veja o que já descobrí:
    O soneca - não é a palestra que está dando sono, é que o cara passou a noite na balada.
    O perguntador - é falta de disciplina mesmo. O sujeito não consegue ficar calado.
    O bicho carpinteiro - idem. Futuca o celular, os livros, o bloco de anotações. É desvio de atenção.
    O olhar disperso e batucando - você não está falando o óbvio não. É que o sujeito já leu sobre o assunto numa orelha de livro e acha que sabe.
    O conversador - este, além de ter lido a orelha do livro, tem que contar para o vizinho, para mostrar que sabe. É seu marketing pessoal, mesmo que seja para um total desconhecido.
    Você já deve ter palestrado para estas figuras. Eu ainda estou aprendendo.
    Parabéns pelo artigo.

    Um abraço,

    Maria Carvalho

  5. 5 Sandra Lopes

    MIlton, mais uma vez, parabéns!! Já passei por isso.De fato,é até constrangedor perceber que tudo já foi dito
    e tentar buscar mais e mais informação na memória….e perceber que qualquer coisa que seja dita a partir dali
    poderá cansar o público.

    E Maria, já idenfiquei esses personagens rsrs.´
    Já adota algumas técnicas para superar esses pequenos obstáculos.Provavelmente vc já adota algumas também.

    Sempre estamos aprendendo mesmo. E o Milton com a sua vasta experiência está nos ensinando. Que bom!

    Abraços,
    Sandra Lopes

  6. 6 Gouveia

    Olá Milton,

    Tenho lido seus artigos nos últimos dois dias. Leitura agradável e de excelente nível técnico.

    Parabéns pelo seu esforço e disponibilidade de ensinar. Tenho certeza que minhas aulas não serão mais as mesmas!

    Gouveia

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